Confissões
Capítulo II
Certa vez eu estava na igreja e uma amiga, que havia sido casada com outro amigo meu, apareceu.
Fazia bastante tempo que eu não a via. Começamos a conversar, colocar a conversa em dia, falar sobre a vida, até que, de repente, ela me disse:
— Não estou mais casada com o Ralph.
Eu fiquei olhando para ela, esperando que continuasse.
Então ela falou:
— Conheci uma outra pessoa e estou com ela. E é uma outra mulher.
Naquele momento eu apenas respondi:
— Uau… e você está feliz?
Ela me olhou de uma forma estranha e disse:
— Você não vai me condenar?
Essa frase dela me assombra até hoje.
Não porque eu não soubesse o que responder, mas porque percebi que, antes mesmo de ouvir qualquer palavra minha, ela já esperava uma condenação.
Eu respondi que não e perguntei novamente:
— Mas você está feliz?
Ela disse que sim.
Depois ela comentou comigo que estava muito preocupada com a minha reação e que, quando eu perguntei se ela estava feliz, ela não sabia mais o que fazer.
Aquela conversa ficou marcada em mim.
Nós oramos juntos naquele dia. Eu falei para ela que sempre iria orar por ela e que ela sempre teria um amigo para qualquer momento da vida.
E continua tendo.
Até hoje somos amigos.
Eu falei que essa frase dela me assombra, não é?
Pois é.
Ela volta à minha cabeça sempre que vejo alguma discussão relacionada ao mundo LGBTQIA+.
Eu lembro daquele dia.
Também lembro de outra situação.
Eu estava evangelizando um rapaz que era travesti. Conversamos bastante e, em determinado momento, fiz um convite:
— Vamos à minha igreja?
Ele prontamente respondeu:
— Sim.
Eu fiquei muito feliz por ele ter aceitado.
Combinamos o dia.
No domingo, ele foi.
Minha esposa e eu sentamos com ele em um banco que cabiam seis pessoas.
A igreja estava lotada.
Havia pessoas em pé.
Mas naquele banco havia três lugares vazios.
E ninguém quis sentar ali.
Aquilo me marcou profundamente.
E eu pergunto:
A que ponto chegou a igreja dos dias de hoje?
E quero deixar claro: não estou falando da Igreja de Jesus.
A Igreja de Jesus é diferente.
Estou falando de uma parte da igreja formada por pessoas que se colocam no lugar de juízes, magistrados de Deus, julgando e condenando a todo momento.
E então eu me pergunto:
Eu, como pastor, sou um condenador?
Não.
Eu sou um mensageiro.
E um mensageiro não cria a mensagem.
Ele apenas entrega aquilo que recebeu.
Jesus disse:
“Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.”
(João 14:6)
Como mensageiro, estou aqui para anunciar aquele que é o caminho, a verdade e a vida.
Como mensageiro, estou aqui para ajudar os necessitados, cuidar dos órfãos e das viúvas.
“A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se da corrupção do mundo.”
(Tiago 1:27)
Como mensageiro, estou aqui para anunciar a maior mensagem de amor que já existiu:
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”
(João 3:16)
Agora, ser julgador?
Ser condenador?
Não.
Esse não é o meu papel.
Deus irá julgar?
Sim.
Ele julgará todos nós.
A mim também.
Mas existe algo que eu acredito profundamente: o julgamento de Deus será diferente do julgamento humano, porque Deus é amor.
“Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.”
(1 João 4:8)
Eu não posso dizer que minha amiga do início dessa história será condenada.
Eu não posso dizer que milhões de pessoas LGBTQIA+ serão condenadas.
Eu não posso.
Porque, se uma pessoa se arrepender verdadeiramente no último momento de sua vida, eu acredito que Deus conhece o coração dela.
E o céu será um lugar de muitas surpresas.
Quando chegarmos lá, talvez encontremos pessoas que jamais imaginávamos encontrar.
E talvez não encontremos algumas pessoas que tínhamos certeza que estariam lá.
Porque o julgamento pertence a Deus.
Se o ladrão na cruz se arrependeu e recebeu a promessa do paraíso, quem sou eu para julgar meu irmão, minha irmã ou minha amiga?
Quem sou eu para achar que tenho a palavra final?
Eu não sou o juiz.
Eu o que eu sou você pode me perguntar:
- Eu sou apenas um mensageiro.
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